terça-feira, 20 de julho de 2010

trampolim.


são sempre melhores os dias em que a cabeça fica de fora. em que os reflexos se fazem desancorados do pensamento inteligente e em que saltar implica apenas sentir borboletas na barriga, sem queda.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

nada acontece por aqui, que não aconteça também aí.

e é agora que acordam os leões.
os dramas das bestas despertam com a claridade dos dias e vemos os seus olhos raivosos, sedentos de sangue, dentes com sorriso de fome sarcástica. há uma migração lenta e calculada, nada movida a paixões. o tempo é medido, a distância percorrida com passos de caçador experiente. ninguém escapa. rolam cabeças, caem corpos, sobe o pó no ar. todos os passos se tornam rápidos, apressados, sente-se a pulsação rápida e sofrida, a ansiedade da fuga e a ansiedade da caça, o desespero dos que não conseguem fugir e a alegria fria dos que os conseguem derrubar. quando toda a terra desce sobre si mesma, de novo. após toda a luta, poucos sobram naquele lugar repleto de silêncio assustado e cheiro a tristeza. quem sobra, sobra de espírito quebrado e com planos de fugir para outro vale. onde se escondem outras fugas, outras lutas e mais perdas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

that is why I hold you near.

baixei o som aos hinos das noites mal dormidas por arrebatamento errado do coração, baixei a arma que tinha apontada um bocadinho mais à esquerda do centro do peito, colei os pedacinhos de unhas roídas e espantei as asas dos morcegos que me faziam sombra.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

tijolos constroem asas

Querida casa,

abandono-te hoje, com a insegurança dos passos. desculpa-me sair no meio da noite, com atitude de quem não tem coragem para assumir o que fez. tenho de ir, não é por não querer ficar em ti mas porque há mais sítios mais casas mais caras mais emoções que aqui, em ti, já não consigo sentir. é da protecção que fujo e me atiro para a invenção de novas horas, com a abertura para sofrer de novo o nervosismo do desconhecido. já me esqueci de todo o tempo que passei longe, não ficou marcado no meu corpo e pouco ficou no coração, porque aqui estou e tu, tudo apagas e tornas menos vivo. querida casa, não penses que não te sinto, sinto-te aqui, comigo, todos os dias e a todas as horas. mas sinto também que preciso da tua ausência, que o frio que faz lá fora far-me-á tão bem como o calor que me dás cá dentro. vou e voltarei, de certeza. porque volto sempre e tu sabes. e sabes também, que a minha fuga na noite, apenas se prende com o horário que não existe aqui. poderia sair ao meio dia, às 4 da tarde, às 11 da noite mas não, tenho mesmo de pegar nas malas e sair a meio da noite. porque as saídas pela madrugada são sempre mais dramáticas, mais lembradas, mais inesquecíveis e cheias de emoção. são também, histórias mais heroícas de contar, contos de capas que tapam a cabeça e ocultam a identidade, enquanto ela ainda procura o lugar onde quer ir e ser reconhecida. vou então. vejo-te dentro em breve, porque não conto ausentar-me por muito tempo, em tempo de rocha. até breve.

até breve. já volto.

domingo, 23 de maio de 2010

fora de horas

quando os dias não chegavam
e as noites eram imensas
sentava-me, minuto após minuto à beira da janela,
de pés descalços, pendurados ao vento.