ai, que isto hoje bate que nem um turbilhão dentro do peito. são vestigios da concepção, da quimica que queima as terminações nervosas e bloqueia o sono, a fome, a realidade palpável. são luzinhas incendiárias que se vêm à transparência quando pomos os corpos em contra-luz. é o rapto precoce e digno de recordação de barba branca que leva consigo toda a existência realista.
vejo assim ao longe, as mãozinhas dadas e os sorrisos incomparavéis, regozijo-me em pulinhos assarapantados e bloqueio dos gritos de felicidade porque está frio e nem toda a gente compreende que seja possível explicar o inexplicável. vou e venho e tudo continua cá e por aí. sinto-me tão mais livre que não consigo descrever.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
.sobre a pequena máquina.
se alguém um dia te roubar aquela pequena máquina que bate forte no teu peito, dá-lhe um papelinho com a morada e pede-lhe que to devolva com aviso de recepção. é sempre mais fácil remendar pedacinhos que sabes que regressarão, do que tentar descobrir onde foram lançados ao vento. e, em certos casos, não te esqueças de passar recibo, para que a pessoa saiba que o roubo foi caro e que deixa sequelas. se ainda assim, com tanto cuidado, foi um assalto violento, deixa-te estar e finge morta, não há melhor maneira de recuperar do que não recuperando e apenas aguardando que a pequena máquina auto-remende os pequenos fragmentos destruídos.
sábado, 31 de outubro de 2009
.aos paineis luminosos do caminho.
'- era em momentos como estes, que eu costumava pensar em morrer', escreveu ela num papel bonito, decorado como os quartos antigos, cheios de memórias de muitos tempos, de tempos idos, dos momentos do presente e das idas e regressos inesperados. Do outro lado da parede algo manifestou a sua existência. Ela levantou os olhos da sua concentração de fim de tarde, de sol de outono, quase quente mas ainda assim vestido de casaco. Tentou imaginar o que se manifestava do outro lado mas o silêncio voltou a reinar. Baixou os olhos, pegou de novo no lápis, partiu o bico ao encostá-lo à folha. Afiou-o. Recomeçou... '- era nesta data que pegava em ti e iamos passear até o dia terminar. Faziamos destas horas, horas de vida, de cor, sabias como fazer-me sorrir mas preferias ver-me a desfazer-me em risos e enchias-me de brincadeiras insensatas, reprovadas pelos crescidos que por nós passavam. não te importavas com os olhares reprovadores e fazias-me cocégas até não conseguir respirar mais, de tanto rir. Quis ver-te mais uma vez mas todos me impediram. Não quero acreditar que foste. Que me quiseste deixar. ' Parou, olhou e releu, chorou de saudades e voltou a ter vontade de morrer. Não vontade de se matar, mas de morrer. Levantou-se e apanhou um papel caído no chão em que não havia reparado antes. No papel dizia: '-Eu não fui.' e ouviu-se um estrondo gigante vindo do silêncio anterior. O silêncio que se seguiu foi mais assustador porque parecia que o tempo tinha gelado e ela sentiu-se congelada pelo som e pela sua ausência posterior.
Saiu a correr do quarto, do corredor, de casa, bateu com a porta, correu pela rua e foi bater na casa abandonada ao lado da sua. Parou junto à porta fechada, respirou fundo para reaver o fôlego e enchendo-se de toda a coragem do mundo, aquela que só o Amor consegue dar em momentos de loucura destemida e gritou: 'SEI QUE NUNCA PARTISTE, ABRE!'
Entrou...
Do lápis pousado pouco sobrou, apenas as aparas caídas no caixote e as suas amigas raspas de borracha verde, que mais borrou o papel do que apagou o desenho. Nunca voltou a ter vontade de morrer. Tudo se explicou numa fracção de tempo curto.
Saiu a correr do quarto, do corredor, de casa, bateu com a porta, correu pela rua e foi bater na casa abandonada ao lado da sua. Parou junto à porta fechada, respirou fundo para reaver o fôlego e enchendo-se de toda a coragem do mundo, aquela que só o Amor consegue dar em momentos de loucura destemida e gritou: 'SEI QUE NUNCA PARTISTE, ABRE!'
Entrou...
Do lápis pousado pouco sobrou, apenas as aparas caídas no caixote e as suas amigas raspas de borracha verde, que mais borrou o papel do que apagou o desenho. Nunca voltou a ter vontade de morrer. Tudo se explicou numa fracção de tempo curto.
domingo, 20 de setembro de 2009
sobre pés frios em fins de tarde de calor*
a pressa com que ela mergulhou naquele rio foi o que a levou a morrer nele. não houve momento de hesitação, teve a certeza que era assim que tinha de ser, era a decisão que tinha de tomar e mergulhou. no fundo do rio ou dela, algo se partiu e nunca mais fechou os olhos para respirar. agora, vive a boiar num rio sem marés, sem nunca nunca pestanejar perante as pedras, respirando água doce e fazendo amizades com os peixes que passam. é inevitável deixar de olhar em volta e ver se deixou alguém para trás mas parece que não, que ninguém a acompanhou naquele passeio de fim de dia que a levou a morrer ali. ou talvez, a tenham esperado na outra margem, onde nunca apareceu e cansaram-se de esperar. uma outra vida que seguiu, que pestaneja e que não se quebrou com a dela. mas essas mãos nunca sentiram de novo as mãos dela e esses olhos perderam os pequenos momentinhos em que os dela já não pestanejam. e já não faz mal porque tudo seguiu com a corrente, ela sem pestanejar e ele sem existir.
há histórias de Amor assim, que começam com partidas.
tenho os pensamentos do avesso
estou deitada de costas de pernas contra a parede e cabeça a cair da cama
o tecto é o chão e as paredes bem podiam estar tingidas de cor de rosa que eu não daria pela diferença
fiquei alheia a tudo o que me rodeia quando desci aquelas escadas e o teu olhar se cruzou com o meu
acho que não poderia deixar de mentir-te e omitir-te tudo isto
vejo agora que não faz diferença nenhuma, posso mentir-te ou dizer-te a verdade
mas tu continuas parado no fim da escadas, a segurar a porta, à espera que eu passe,
que te cumprimente, que te beije, que te agradeça a espera e te faça seguir-me em silêncio.
estou deitada de costas de pernas contra a parede e cabeça a cair da cama
o tecto é o chão e as paredes bem podiam estar tingidas de cor de rosa que eu não daria pela diferença
fiquei alheia a tudo o que me rodeia quando desci aquelas escadas e o teu olhar se cruzou com o meu
acho que não poderia deixar de mentir-te e omitir-te tudo isto
vejo agora que não faz diferença nenhuma, posso mentir-te ou dizer-te a verdade
mas tu continuas parado no fim da escadas, a segurar a porta, à espera que eu passe,
que te cumprimente, que te beije, que te agradeça a espera e te faça seguir-me em silêncio.
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