domingo, 29 de abril de 2012

Alecrim aos molhos

Ela que se despe, que se recusa a ter roupa sobre o corpo, decide mostrar que não tem vergonha porque o corpo é seu e o pode mostrar, despojando-se do que mais a envergonha, a vontade de escondê-lo. Ela que vive na guerra entre as vontades de que quer ser e do que pode ser, tira a roupa, primeiro em frente ao espelho e depois, recusa-se a olhar-se de frente. Ela que cai e chora sobre si mesma, levanta-se e parte o espelho, não querendo testemunhas para o seu embaraço. Ela que não aguenta mais, não saber se volta a vestir a roupa ou se abre a porta e enfrenta o mundo, nua, sem roupa e sem vergonha. 

Na sombra

Eles fecham-se e ausentam-se e esquecem-se que foram lá, lá se deitaram e lá viveram. Saem e desaparecerem nas sombras, como se nunca tivessem acreditado, nem visto. Esquecem-se da chuva, como se esquecem das palavras e rendem-se ao nunca, porque o para sempre às vezes desliza nas janelas, derrete-se e desaparece.

domingo, 4 de março de 2012

Sobre os picos das roseiras

Fui atingida pela insensibilidade. Aquela dos sentidos, que apenas permite passar pelos dias, sem os sentir, nem bem nem mal. Saí de dentro de mim e caí para o poço da surdez, ausente dos saltos, dos altos, dos escorregas e da excitação. Foi a irritação a tomar conta, foi a raiva a consumir-me. Resisti a sentir-me, sentia que não sentia e continuei. Demorou para que chegasse a certeza de nada sentir, mas parece que ainda assim, a fechei do lado de fora da porta e recusei abrir quando a ouvia. Cresceu e cresceu e cresceu, como a semente que não foi plantada mas trazida pelo vento ou por alguém que ali passou. Troquei os dias de sentir, pelos dias da pressa, da fuga, de contar as horas para o fim destas horas. Deixei que respirar ficasse apenas para a noite, para os sonhos, onde não há distância entre dias, onde não distância entre horas. Plantei a semente da angústia que foi controlada pela insensível incapacidade de lidar.


Matei-me mais um pouco a cada dia até não conseguir mais respirar acordada.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

verdes campos

Vem aqui. Onde todos estamos bem.

domingo, 13 de novembro de 2011

O meu melhor cão do mundo


Tenho uma lista gigante de exigências para ti.



Quero ver-te fazer tudo de novo, quero ouvir tudo de novo, rir tudo de novo. Quero acordar porque o Sr. Patinhas decidiu que não está contente dentro do quarto e quer sair, quero ter de me levantar da secretária porque Sua Excelência, o Sr. Cão decidiu que a única porta de entrada é a da frente e um cão da sua categoria, nunca poderá entrar pelo portão de trás. Quero ver-te a nadar no rio, muito preocupado que o barco se está a afastar ou que aquela pedrinha que caiu é mesmo a mais importante e só pode ser resgatada com um mergulho de cabeça. Quero que me reconheçam porque sou a dona do Alfredo. Quero voltar a ver-te pequenino, a escavar buracos do teu tamanho no jardim e saber que está alguém à porta porque ladras. Quero ir passear contigo para Sintra e apanhar sustos com cães malucos que quase fazem o ciclista ser malabarista. Quero passar a tarde na praia, entre mergulhos, corridas, garrafas e muitos "- Alfredo, anda cá!". Quero chegar a casa e ter-te à espera porque conheces todos os carros. Quero ter de esconder o fiambre. Quero dar-te festas no 4º degrau. Quero ouvir-te a andar pela casa e a descer os degraus, todo molengão pela manhã. Quero que vás procurar a bolinha e percas a paciência com as gatas porque brincam demais e já não há respeito pelo cão da casa. Quero voltar a ser a única pessoa a quem não ladras, quando a porta abre depois da meia noite. Quero ouvir-te a ladrar ao anúncio da teleseguro. Quero ver-te a fugir das moscas e esconderes-te no meio dos arbustos. Quero que durmas no sofá ou na cama, embora sejam zona interditas. Quero ter de te empurrar para trás quando vou a conduzir porque como cão piloto que és, tens de ir a controlar o caminho e não deixar que mude de mudança. Quero que tentes comer todas as abelhas de novo e que me voltes a mostrar o teu dom especial de tirar primeiro a tampa e só depois brincares com as garrafas. Quero que ladres à ape-50 porque atropelar um cão não é coisa que se faça. Quero que salves mais gatas do esgoto e acabes por ter de superar o teu ódio a gatos, tudo outra vez. Quero que continues a odiar huskies. Quero ver-te a morder as ondas. Quero passear contigo no paredão e poder espantar cães parvos de novo. Quero ver-te na maior felicidade quando vais buscar um de nós ao aeroporto. Quero ver-te na excitação do "- Onde vamos agora? não conheço este caminho! Ah, espera, conheço, sim! Errh, afinal não...". Quero coçar-te as costas e depois a barriga, ser a dona mais orgulhosa do cão mais lindo e mais cómico de todos os tempos.

Pergunto-te agora, Alfredo... Quem é que vai ladrar os parabéns a você na próxima festa de aniversário? Quem é que vai ladrar aos foguetes no ano novo? Quem é que vai escancarar a porta do meu quarto e lamber-me a cara ou pé ou saltar para cima da cama em maneira de bom dia? Quem é que vai fugir na última hora do último dia de férias e atrasar o regresso a casa em três horas? Quem mais é que vai levar uma estrela ao peito e ser cão xerife ou usar um lenço vermelho e ser cão motard? Quem é que vai descobrir um relógio de parede, ladrar para ele e mostrar que está na hora de ir embora?

Desculpa mas fazes-me falta. Às vezes ainda acho que te vou ouvir a passar no corredor ou a ladrar à porta. Acho que me vou esquecer muita vezes que não preciso de fechar a porta do quarto, basta apenas encostá-la porque já não a vais escancarar e fazer ar de "- Cheguei! Coçadela nas costas?!".

Adeus, meu cão.